Regras de roteiro: como saber se o seu caso é uma exceção?

Atualizado: 4 de Abr de 2020

O lado bom das regras de roteiro é que elas nos ajudam a formatar nosso trabalho dentro do padrão profissional. O lado ruim é entendê-las com radicalismo, abrindo mão do bom senso e ignorando as peculiaridades de cada roteiro.


Vamos a um exemplo:


O que diz uma das regras de roteiro:

"Personagens devem ter camadas, não podem ser rasos".


Realidade:

Nem sempre isso é verdade. Há situações em que dar camadas ao personagem é desnecessário, além de prejudicar a trama.


Vamos supor que seu protagonista seja um cara azarado e fracassado. A trama é uma história de superação em que ele irá vencer obstáculos e se tornar um sucesso na vida. Esse protagonista trabalha em uma posição subalterna em uma empresa. A chefe dele é carrasca e arrogante, humilha os funcionários e o seu protagonista sofre na mão dela.


Interessa ao público saber os motivos pelos quais a chefe é intragável? Interessa mostrar que ela tinha um pai que a humilhava e que ela escolheu uma profissão de autoridade para, inconscientemente, se vingar dele?


Não, não interessa. Nessa trama específica, o foco é o protagonista fracassado e os obstáculos que ele enfrenta. A função da personagem "chefe" é ser um dos obstáculos a ser vencido. Apenas as ações dela contra o protagonista interessam (e não os motivos pelos quais ela age assim).


O público quer saber das dificuldades do protagonista, não da chefe.

O público quer ver o protagonista vencer a chefe e não ter empatia pelos problemas dela.


Seu personagem não será MELHOR porque ele tem várias camadas e sim porque a construção dele é coerente com a trama.


Cabe a você, roteirista, analisar o seu roteiro e verificar se a regra se encaixa nas peculiaridades da sua história. Vai se encaixar em 95% das vezes. Mas há os 5% de exceções e você deve ser capaz de identificá-las quando for o caso sob pena de prejudicar a sua trama.


Leda Ene

Roteirista

154 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo