Você é roteirista iniciante e está com a criatividade "travada"? Esse pode ser o motivo.

Atualizado: 4 de Abr de 2020

Quando eu vejo posts de dúvidas de roteiristas iniciantes, as perguntas nunca são assim:


"Escrevi essa cena de perseguição. Vocês acham que está empolgante?"

"Essa cena está assustadora? É o clímax do meu roteiro de terror"

"Vocês acham que esse diálogo do meu vilão ficou caricato?".


O que eu sempre vejo são perguntas assim:


"Quando se usa (insira aqui qualquer termo técnico)"?

"Como descrevo que Fulano fez tal coisa?"

"Como eu coloco Y no roteiro?"


Ou seja, a preocupação do iniciante é sempre em relação às regras/estrutura/termos técnicos (forma) e nunca em relação à qualidade da história (conteúdo).


E isso é uma inversão.


Um roteiro é composto por 2 partes:


CRIAÇÃO: conteúdo, qualidade da trama, ideias, a história em si.

FORMA: estrutura, formatação, termos técnicos, regras.


A criação é responsável por 90% da qualidade do roteiro.

A forma é responsável por 10%.


Se 90% da qualidade de um roteiro vem da CRIAÇÃO, por que os roteiristas iniciantes se preocupam tanto com a FORMA?


Resposta:

Porque quando o iniciante vai buscar as primeiras informações sobre como ser roteirista, ele recebe esse feedback: "Tem que estudar!", "Estude as técnicas!", "Estude estrutura!, "Estude a jornada do herói", "Em que nível de estudo você está?", "Estude mais!", "Leia roteiros profissionais!", "Assista muitos filmes e séries!", "Estude! Estude! Estude!".


E o que os livros e cursos ensinam? FORMA.


O roteirista, então, mergulha em livros, cursos, seminários, assiste a todos os filmes que pode, "maratona" séries, vasculha a Internet para ler roteiros profissionais.


O quantidade de informação é enorme. São muitas regras, técnicas, jargões, "pode", "não pode", estrutura. E o inglês? Os melhores materiais de estudo estão em um idioma que muitos iniciantes não dominam.


Tudo isso assusta.


Por isso, apesar de toda essa bagagem de estudo, o iniciante começa a ter dificuldades para escrever os próprios roteiros. Ele, inclusive, passa a apresentar alguns "sintomas":


  • Fica inseguro em relação ao seu roteiro.

  • Fica inibido pelas técnicas, estrutura ou jargões.

  • Tem dificuldade para finalizar o roteiro.

  • Tem dificuldade de gostar do próprio roteiro.

  • Procrastina.

  • Fica dependente de outros roteiristas para avançar, ter ideias, solucionar cenas do roteiro etc.


Esse problema não é gerado pelo estudo, obviamente. E sim pela dedicação ao estudo na fase errada. E qual é a fase errada? Exatamente quando o roteirista está iniciando.


Antes de aprender sobre embalagem, é necessário dominar o conteúdo.


A primeira coisa que o iniciante deve fazer não é mergulhar em livros e cursos e, sim, treinar sua habilidade de escrever histórias interessantes que chamem a atenção, que façam o leitor querer virar a página.

Eu disse escrever "histórias interessantes", não roteiros interessantes.


O que isso significa? Que nessa PRIMEIRA FASE, o roteirista iniciante não precisa ter um grande conhecimento sobre o que é um roteiro. Ter uma noção e já ter lido algumas páginas de um roteiro profissional já bastam.


O primeiro roteiro que escrevi na vida tinha características literárias e alguns elementos de novelas. Vários erros técnicos, portanto. Eu tinha lido apenas o "Story" (Robert Mckee), que fornece os fundamentos do que é um roteiro, e algumas páginas de um roteiro profissional que achei na Internet. E só.


Eu não estava preocupada com regras/termos técnicos/estrutura porque eu sabia que elas eram secundárias naquele momento. O mais importante era eu testar minha habilidade de escrever uma boa trama.


Então, com apenas uma noção básica do que era um roteiro, eu comecei a escrever a minha história. Depois que digitei "FIM" e fiquei satisfeita com a trama, aí sim estudei as regras e ajustei meu trabalho.


Em três dias eu tinha um bom roteiro em mãos: uma história interessante dentro da estrutura e seguindo as regras.


E mais: eu descobri que muitas das regras de estrutura eu já tinha feito no meu roteiro intuitivamente. E por quê? Porque toda boa história segue várias dessas regras.


Ou seja, se você se preocupar em criar uma trama de qualidade, verá que, intuitivamente, irá cumprir vários requisitos técnicos de estrutura.


A partir desse primeiro roteiro ajustado, fui escrevendo as próximas tramas já dentro do formato de um roteiro profissional. Desse modo, lapidei meu estilo e encontrei minha própria voz como roteirista, sem nunca "travar" minha criatividade.


Mas isso só aconteceu porque eu dei importância e prioridade absoluta ao ouro: a qualidade da história. Só me preocupei com a "embalagem" depois.


Portanto, se você estiver "travando" e se identificou com o perfil que descrevi, volte uma casa. Interrompa os estudos e dê atenção total à sua criação. Escreva uma história sem se preocupar com nada a não ser a qualidade da trama.


Só depois que você estiver 100% satisfeito com a sua criação, vá para a SEGUNDA FASE: as regras. E ajuste o seu roteiro.


Leda Ene

Roteirista

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