Como escrever bons diálogos?

Atualizado: 4 de Abr de 2020

As regras dos bons diálogos dizem que:


...eles devem parecer naturais, mas não podem reproduzir uma conversa da vida real.

...eles devem levar a história para frente, mas não podem ser expositivos.

...eles devem ser curtos, mas têm que conter todas as informações necessárias.


Parece contraditório, não? Mas existe uma forma mais fácil de entender como criar bons diálogos:


O público não é o novato que precisa ser "enturmado".

O público é a "mosquinha" que ouve a conversa dos outros.


Com isso em mente, leia o diálogo abaixo que eu criei como exemplo:


ANA

O que você foi fazer na casa da sua tia Joana?

MARIA

Eu fui levar o meu mais velho, o Robson, pra passar o fim de semana. Vou ficar sossegada esses dias, graças a Deus!

ANA

A Joana sempre te ajuda a cuidar do Robson, né?

MARIA

É verdade. Ela me ajuda muito. O meu caçula é um amor. Mas o Robson me dá tanto trabalho!


Vamos listar abaixo quais são as informações que estão sendo transmitidas ao público nesse diálogo:


  • Maria deixou seu filho na casa da tia Joana para o fim de semana.

  • Maria vai ficar sossegada o fim de semana.

  • Tia Joana ajuda Maria a tomar conta do seu filho.

  • Robson é o nome do filho de Maria.

  • Robson é o filho mais velho.

  • Robson dá muito trabalho para Maria.

  • O filho mais novo de Maria não dá trabalho para ela.


Lendo esse trecho de diálogo, percebe-se que Ana e Maria se conhecem.


Ora, se elas se conhecem, por que a Ana está mencionando que Joana é tia de Maria? E por que Maria está informando Ana que o filho mais velho dela se chama Robson? É claro que as duas já sabem dessas informações. E por que o diálogo parece tão artificial, como se as personagens explicassem suas vidas uma para a outra?


É porque o roteirista está tentando "enturmar" quem não tem essas informações: o público. Por isso o diálogo fica ruim, artificial, expositivo, longo, desinteressante.


Agora veja uma nova versão do diálogo anterior:


MARIA

Pronto! Já tá com a tia. Esse fim de semana tô sossegada!

ANA

A Joana te ajuda muito, né?

MARIA

Muito! O caçula não dá trabalho, mas o Robson....


Viu a ENORME diferença?


O público agora está sendo tratado como a "mosquinha" que escuta a conversa dos outros, ou seja, só está recebendo as gotas de informação necessárias para ligar os pontos e entender a história. Nada a mais. Por isso o diálogo fica curto, objetivo, interessante, natural.


Veja abaixo um esquema do diálogo corrigido com todas as informações transmitidas em cada trecho.


MARIA

Pronto! Já tá com a tia. Esse fim de semana tô sossegada!

O que o público entende:

Maria deixou alguém na casa de uma tia.

Esse alguém vai passar o fim de semana com a tia.

Por causa disso, Maria estará sossegada esse fim de semana.


Obs: até esse momento do diálogo, o público não sabe quem Maria deixou na casa da tia. Mas pela frase valorizando o "sossego" e pela própria menção a uma "tia", o público já começará a deduzir que é o filho.


ANA

A Joana te ajuda muito, né?

O que o público entende:

O nome da tia é Joana.

Joana ajuda Maria em relação a essa pessoa que foi deixada na casa dela para o fim de semana.


MARIA

Muito! O caçula não dá trabalho, mas o Robson....

O que o público entende:

O nome da pessoa que Maria deixou com a tia Joana é Robson.

Robson é filho de Maria.

Joana ajuda Maria a cuidar de Robson.

Robson dá trabalho para Maria.

O filho mais novo de Maria não dá trabalho para ela.


A diferença dessa versão é que, em vez dessas informações serem mastigadas para o público com um didatismo artificial, aqui elas são DEDUZIDAS por quem assiste Ou seja, o roteirista joga pequenas pistas. deixando lacunas para que o público "ligue os pontos".


Repare em mais duas coisas importantíssimas:


1. A quantidade enorme de informações que o público consegue entender a partir de um diálogo bem construído.

2. A possibilidade de se transmitir muita informação com pouquíssimo diálogo.


Roteiristas que escrevem diálogos "enturmando" o público tendem a achar que, se não fizerem assim, as pessoas não vão entender e, por isso, não vão querer assistir.


Mas é o contrário.


Diálogos que fazem o público ligar os pontos fisgam quem assiste, despertam o interesse, geram engajamento.


O que afugenta as pessoas é exatamente a mania de "explicar tudo muito bem explicadinho". Isso torna os diálogos chatos, longos, cansativos, amadores e até irritantes, pois subestimam a capacidade de entendimento e a inteligência do público.


Para quem pensou no didatismo dos diálogos de novelas: esse blog trata de filmes e séries. Novela é outra modalidade de entretenimento e, sendo assim, tem suas próprias regras e tradições.


HÁ EXCEÇÕES?

Sim, sempre. É importante que o roteirista entenda que nenhuma regra de roteiro é 100% absoluta para todos os casos existentes no planeta. As regras podem ser aplicadas em 95% das situações. Os 5% restantes são os casos fora da curva.


EXERCÍCIO:

Proposta de exercício prático e funcional: a partir dos diálogos expositivos de novelas, faça versões diretas e objetivas como se fossem diálogos de filmes ou séries.


Leda Ene

Roteirista

424 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo